14 abril 2006

CHAMAMÉ (seudonovela delirante en portuñol con guaranises). Sexta entrega.

*

Vou te decir que ese encontro com lo cholito, nus fundus fondos du añaretá añarekó dus Buenos Aires, pareceu coisa de noso verdadeiro pai Ñande Rú. Tal como si lo viejo lo ouviese anotado num papelinho michimí cuando estava nu medio das tinieblas primigenias; uno papelinho que depois se le traspapelou entre tanta porcaría deste mundu, e que cuando lo viejo encontrou, entre tanta porcaría deste mundu, decidiu que se cumpliese lo que alí havía anotado.

Foi coisa verdadeiramente sobrenatural. Eu e lo Cholo éramos dois gentes que nei precisávamos nos falar pra entender lo que lo outro estava malisiando, tal como si fuósemos dois metades da mesma zabeca: pehengue mokõi zabeca ha´eveté. Dois partes que funcionando como uma lubricada maquinaria musical conseguíam la mais difícil operacião du mundu todo: facer musiquinha instrumental com lo sonido du pensamiento:

avañe´ê
parãrã pereré

Na estacião Callao eu e lo Cholo nos pusimos los antiojos negros, y tanteando lo aire com uma mano como dois cieguinhos desnorteados subimos a lo primeiro trencinho fantasma que chegou. Cuando las gentes se abrirom paso e nos mandamos pra dentro du vagão, eu ví desde trás de meus antiojos negros uno montão de caras de pescados mortos nos mirando duma forma mais fiera que la morte. Ouví terrívles voces que parecíam venir du mba´é pochy añá: ¡pobres cieguitos!

Te juro que lo miedo me fizo uno nudo nas tripas e tuve grandes ganas de salir correndo pra fora du trencinho, mas la porta ya havía se fechado. Mirei a lo Cholo pra le pedir auxílio, mas ele estava mirando pra lo techo du tren como uno verdadeiro cieginho, mientras falava não sei que coisa da caridade e das monedinhas. Aí mesmo me entrou uma temblequeira nas pernas e meu corazão empezou a fazer uno túky túky enloquecido que hasta me pareceu ver la bruma final. Mas vosé não vai acreditar mia suerte, porque justo então, antes que eu me desabase desmayado, aconteceu uno milagre milagroso: entre todas las gentes que nos miravam com suas caras de pescados mortos encontrei, como uno oasis nu deserto, los ojos de agua azul-azulina de uma rubia poraité demais me mirando mborayhuhápe: mbarakayá kyrÿimi la rubia querendona me mirava. Aí sí me volvió la sangre a lo corpo e lo coraje se me subió a la zabeca de uno repente. La música comenzou a correr feito uno carro de F1 por mias venas, e então decidí arreventar zabecas com uma improvisacião capaz de facer bailar hasta uno finado. Eu estava convencido de que se mostrase pra todo lo gentío dese trencinho fantasma quien eu era, então la rubia querendona sabería sin ninguna dúvida, com la certeza de uno balazo, quien era lo verdadeiro patrão du chamamé.

Respirei fundo, deijei la bolsa com laranjas e chipá num costado, abrí lo estuche de mia cordiona de seis fileiras, la saquei como si fuose lo Antonio Banderas sacando uma metralhadora de 10.200 tiros por segundo nu medio du deserto mexicano, coloquei meu pié sobre lo estuche, me calcé la máquina sobre la perna direita, e com la zabeca perdida na música e na imagen da rubia querendona entré a escupir plomo pra todos lados, improvisando bonitu sobre ese chamamezaso chamado General Madariaga, da autoría du Grande Sr. da Cordiona, ex-embajador de Paso de los Libres City: ¡DON ERNESTO MONTIEL, CARAJO!

Vosé sabe que eu nunca na mia vida me olvidei, nei agora que estou mais morto que dios me olvido du que aconteceu imediatamente depois que eu empezase a meterle rosca a lo chamamezaso General Madariaga angaú. Lo que aconteceu foi que de repente todas las voces se apagaram e dentro du vagão ficou flotando sólo lo sonido de meu instrumento. Eu sentí como los bajos se movieron pesadamente pelo aire, atravesaron lo vagão entero, rebotaron contra la puerta e voltaron para onde eu estava mientras las notas altas fueron e vinieron em círculos, virando e virando sobre si mesmas, saltando como uma explosião de colores claros-claritos, sacándole como tres vueltas a las outras. Lo sonido de mia cordiona de seis fileiras se levantou como uno hongo atómico: chenou lo vagão du trencinho fantasma: invadiu los ouvidos de las gentes com uma forza arrebatadora: uma forza pior que la radioactividade, que fizo que algunos perdieram la respiração durante los primeiros dieciseis compases.

Dieciseis compases, ese foi lo tempo que lo Cholo permaneceu parado nu medio du vagão, duma maneira tal que parecía la persona más solitaria du mundu todo, mirando pra lo techo como si fuose la persona mais ciega du mundu todo, sem facer uno único gesto, como la persona mais sorda du mundu todo. Mas cuando eu cheguei a lo final da oitava vuelta, lo Cholo levou la zampoñita a la boca e empezou a soplar como uno loco uno bonitu yvytu-í musical:

lalá
pepé
popó
pupú
tytýí
kukúi

¡Purahei iporá! lo que estava se ouvindo. Tão iporá e espectacular que eu não podia nei acreditar. Lo Cholo parecía la reencarnacião de lo John Coltrane tocando uno chamamé angaú com uma zampoñita de tacuara.

La coisa se puso mais linda que mia hermana nu trencinho fantasma, que siguió viaje hasta parar na estacião Uruguay. Alí subiram mais pasajeiros, mas nadie baijou du noso vagão. La nave continuou viajando a 100 por hora, faciendo uno traca-traca de fierros que ya nadie mais ouvía, porque lo Cholo e eu, eu e lo Cholo, numa improvisacião maravilhosa chenávamos de música todos los recovecos onde podían se esconder los ruidos e lo silencio dentro das zabecas das gentes.

Iso acontecía porque los dois falávamos lo mesmo lenguaje: ñe´é porá tenonde, e nese acto de fazer música com lo sonido du pensamiento eu movía mias manos para expresar com mia cordiona de seis fileiras lo que ele pensava e ele soprava como louco, moviendo las manos, pra decir lo que por mia zabeca se pasava.

Fuimos hasta la estacião Carlos Pellegrini onde mais gente subió a lo trencinho sin que nadie baijase de noso vagão. Eu e lo Cholo continuávamos falando como si estuviésemos em outra dimensião. Mas noso lenguaje resultava tão universal e primitivo que aunque lo gentío não entendiese la gramática-í de nuestra música, nu fundu nu fundu sentía muito bien noso mensaje.

La melhor demostracião diso aconteceu cuando uma vieja se agarro sapyaitépe com uno pirucito com pinta de doctor angaú, e ambos los dois entraron a sacudirse siguiendo lo ritmo deorbitado que eu e lo Cholo le poníamos a lo chamamezaso de don Ernesto Montiel.

Lo trencinho todavía parou na estacião Florida, onde subiu mais gente, aunque nadie baijou du noso vagão.

¿E vosé sabe por qué nadie baijava du noso vagão? Ya haverá imaginado que iso acontecía porque todo lo gentío, que parecía uma selva de bichos raros enjaulados em suas roupas, rápidamente entrou nu taratí que com lo Cholo le largamos e se comenzou a descamisar que era uma belezura. De modo que cuando lo tren fantasma estava chegando a Leandro N. Alem, que esa era la estacião final du percurso, hermoso bailongo ya havía se formado dentru du nosso vagão.

Foi como si lo gentío se ouviese percatado de uno repente de que afora lo mundo estava se acavando, y antes de salir a la calle e enfrentar una morte segura ante uma invasión yanky, uno ataque de marcianitos verdes de Tim Burton ou cualquer forma absurda de destrucião, ouviese decidido dedicar los últimos instantes de sua vida a bailar lo chamamé.

Cuando finalmente lo trencinho se detuvo e uno parlante falou que todos los pasajeiros devían descender du trem, eu e lo Cholo improvisamos a lo unísono uma coda super porá poraité:

túky túky
tumbýky tumbýky
fle fle

faciendo que lo último fle permaneciese nu espacio durante cuase dois minutos, até que solo solito foi se apagando, se misturando com lo silencio e lo barullo das tripas dus Buenos Aires.

Todo lo gentío comenzou a gritar ¡BRAVO! ¡BRAVO! ¡OUTRA MAESTROS! e eu com lo Cholo, que facíamos lo papel de cieguinhos mas não de boludos, empezamos a pasar por cada pasajeiro com lo estuche de mia cordiona de seis fileiras.

Lo resultado foi que logo depois de receber uma inyeción de vida que durou mais ou menos los 15 minutos de nosa improvisacião, los pescados muertos redivivos colocarom pesos, dólares, patacones e hasta caramelos, que numa conta final nos deu como 1.233 pesos, dividido por 2 = 616 dólares com 50 centavos. Nada mal pra ser noso primeiro trensinho fantasma du suceso.


Añaretá: infierno
Añarekó: endemoniado
Ñande Rú: en la cosmogonía guaraní, el padre creador
Michimí: pequeñito
Malisiar: pensar
Pehengue: pedazo, fragmento, parte
Mokõi: dos
Ha´eveté: mismo
Mba´é pochý: maldito
Añá: diablo
Mborayhuhápe: cariñosamente
Mbarakayá: gato
Kyrÿimi: tiernísima
Angaú: falso
Yvytu-í: vientito
Purahei iporá: música hermosa
Ñe´é: palabra, lenguaje, alma
Porá: hermoso
Tenonde: primigenio
-Í: sufijo deminutivo guaraní
Gramatica-í: gramatiquita
Sapyatitépe: súbitamente
Pirú: flaco

2 Comments:

At 11:11 a. m., Blogger Dama Satán said...

Nos vemos Lunatika sapyaitepe por Asuncion!!!
felicitaciones por la puntualidad semanal del Chamame, vamos por la sexta semana ya!!

 
At 5:34 p. m., Anonymous hebert - paginas web said...

muy buen articulo amigo muchisimas gracias.. :)

 

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